White Paper: Infraestrutura Pública Digital para o Financiamento Climático Global
Case: Economia circular de baixo carbono
A Rede Carrot: trilhos compartilhados projetados para tornar resultados ambientais e sociais verificáveis e financiáveis — e construídos para escalar.
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Ian McKee · Marcelo Doria — Carrot Foundation
v1.6 · Julho de 2026 · Baixar PDF (em inglês)
Para a versão curta, consulte Infraestrutura Pública Digital.
Moldando a economia de que precisamos
Resolver os problemas mais difíceis do mundo — entre eles as mudanças climáticas, a gestão dos recursos naturais e o desenvolvimento humano — dependerá da construção de sistemas econômicos mais sustentáveis e de novos tipos de tecnologia para viabilizá-los. Uma economia sustentável valoriza bens públicos, não apenas bens privados. A dificuldade é que os mercados necessários para essa economia quase não existem: os resultados mais importantes — clima estável, ar e água limpos, materiais recuperados, terras restauradas, comunidades saudáveis e produtivas — beneficiam todos, mas quase ninguém paga por eles. Regras públicas e mercados privados assumem parte dessa responsabilidade, mas nenhum dos dois, isoladamente, direciona capital de forma confiável aos resultados de que a sociedade precisa coletivamente.
A escala do capital que deixa de fluir torna isso concreto. No âmbito do processo climático da ONU, o roteiro de Baku a Belém estima em cerca de US$ 1,3 trilhão por ano até 2035 o financiamento externo de que o Sul Global precisará para a ação climática. Em 2023, o total vindo do exterior foi de aproximadamente US$ 196 bilhões — cerca de 15% do necessário. E a lacuna é maior justamente onde deveria haver um mercado: espera-se que o capital privado forneça aproximadamente metade da meta, mas o financiamento climático privado transfronteiriço chegou a apenas cerca de US$ 42 bilhões — precisaria crescer aproximadamente quinze vezes (Climate Policy Initiative, 2025).
Uma insuficiência dessa dimensão não é um mercado funcionando mal nas margens e aguardando correção; é um mercado que nunca foi formado. E ela persiste porque formar mercados é, acima de tudo, um problema de coordenação — que nem empresas nem governos, agindo sozinhos, estão em posição de resolver. Nenhuma empresa pode construir sozinha um mercado cujo valor beneficia a todos; todo concorrente que se beneficiasse sem contribuir pegaria carona no investimento. Tampouco um único governo pode construí-lo: os problemas atravessam fronteiras, e o consenso entre muitos governos demora a se formar. A formação de mercados exige uma forma de aqueles que estão prontos para agir — compradores, desenvolvedores, financiadores e órgãos públicos — coordenarem-se no nível do sistema, sem esperar unanimidade no âmbito individual ou intergovernamental.
Formar mercados é um trabalho diferente de corrigi-los, e uma coordenação nesse nível exige três elementos ao mesmo tempo. Exige um novo tipo de sistema de financiamento — que oriente o desenvolvimento a resultados claros e verificáveis, ambientais e sociais, direcionando capital a resultados, não a promessas, para que o valor alcance as pessoas que os produzem. Exige uma nova camada de tecnologia que torne esses resultados confiáveis — medidos, verificados de forma independente, registrados de forma única e liquidados com transparência — e transforme as ferramentas que constrói em bens públicos compartilhados, não em gargalos privados. E exige um novo tipo de organização para administrar essa camada — vinculada a um propósito claramente declarado que não possa abandonar silenciosamente, governada com transparência e aberta à participação das pessoas que atende.
Essa camada é a infraestrutura pública digital (DPI). Na forma descrita neste documento, ela está fora do governo, mas trabalha em parceria com ele — e com o setor privado, a filantropia, as finanças, a tecnologia e a ciência — para estabelecer confiança entre partes que, de outro modo, não cooperariam, permitindo que o capital flua para resultados. Sua administração é coordenada por uma fundação cujo propósito é fixado em sua escritura e não pode ser redirecionado para ganho privado. Seu desenvolvimento é progressivamente aberto às pessoas que a utilizam: contribuidores, desenvolvedores e participantes.
A Rede Carrot é infraestrutura pública digital para a economia circular de baixo carbono e eficiente no uso de recursos — os trilhos compartilhados para uma economia de baixa poluição, regenerativa e inclusiva. Seu propósito é ambiental e social ao mesmo tempo: usar capital com mais eficiência para melhorar a circularidade, reduzir a extração de recursos naturais, diminuir a poluição e enfrentar as mudanças climáticas, enquanto cria empregos verdes, renda e oportunidades locais para as pessoas que realizam o trabalho. As metodologias, o registry público e o código de verificação que compõem esses trilhos são bens públicos digitais — abertos, auditáveis e disponíveis para qualquer pessoa que construa sobre eles. Hoje, a Carrot demonstra o modelo em resíduos, reciclagem e metano. Como o padrão é geral e a necessidade vai muito além dos resíduos, os mesmos trilhos foram construídos para se estender a outros domínios ambientais — entre eles água, natureza e biodiversidade. A economia circular de baixo carbono é, portanto, o caso que este documento desenvolve por completo — e o padrão que ele demonstra é o de que o financiamento climático necessita onde quer que um resultado tenha de ser verificado antes de poder ser pago.
E, como essas ferramentas abertas tornam os resultados mensuráveis, verificáveis e financiáveis, elas abrem um caminho que os mercados têm dificuldade de construir: compradores podem se comprometer com resultados antes de eles existirem e reduzir o risco do investimento necessário para produzi-los. Coordenada, essa demanda se transforma em um novo tipo de financiamento climático e de desenvolvimento — que paga por resultados, não por promessas.
O que significa "infraestrutura pública digital"
Infraestrutura Pública Digital (DPI) é o termo usado pelo University College London (UCL) Institute for Innovation and Public Purpose, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, pelo Banco Mundial e pelo G20 para sistemas digitais que funcionam como trilhos compartilhados para toda a sociedade, e não como plataformas proprietárias. Essas instituições compartilham uma família de definições, não um único texto canônico, mas convergem em algumas características: a DPI é fundacional (outros serviços são construídos sobre ela), interoperável (funciona por meio de padrões abertos, não da infraestrutura de um único fornecedor), inclusiva (projetada para amplo acesso) e publicamente responsável (governada de forma aberta). Os casos de referência são as camadas fundacionais de identidade, pagamentos e troca de dados — Aadhaar e UPI na Índia, Pix no Brasil, X-Road na Estônia e o MOSIP open source. O Banco Mundial descreve o padrão como uma pilha de três funções de confiança — identidade confiável, troca de dados confiável e liquidação confiável — sobre a qual outros serviços podem ser construídos depois que ela se torna pública.
Uma ideia estreitamente relacionada é a de bens públicos digitais — termo usado pela ONU e pela Digital Public Goods Alliance para software open source, padrões abertos, dados abertos e conteúdo aberto que podem ser reutilizados e adaptados livremente. A relação é simples: a infraestrutura é o trilho, e os bens públicos digitais são as partes abertas que a compõem. A DPI é mais poderosa quando seus componentes centrais também são bens públicos digitais: não rivais (o uso por um participante não reduz o uso por outro) e não excludentes (licenças e padrões abertos permitem que outros construam sobre os trilhos sem pedir permissão — e, se necessário, deem continuidade a eles de forma independente). A Rede Carrot é construída segundo esse padrão: seus componentes centrais são bens públicos digitais — recursos compartilhados e inspecionáveis sobre os quais qualquer operador, verificador, autor de metodologia ou desenvolvedor de aplicação pode construir.
Nenhuma dessas definições exige um proprietário específico. Como afirmam o UNDP e o UCL IIPP, a DPI é um empreendimento multissetorial que pode ser construído por governos, pelo setor privado, por organizações filantrópicas ou por vários deles em conjunto. A Rede Carrot aplica essa ideia a um domínio que os casos fundacionais ainda não alcançaram: financiamento baseado em resultados para o avanço ambiental e social. Ela constrói sua camada de identidade, regras de metodologia, pipeline de evidências, registry público e distribuição de recompensas como trilhos de mercado compartilhados — utilizáveis por muitos participantes independentes e governados para a missão, não para ganho privado. Começa pela redução de resíduos por meio de recuperação, reuso e reciclagem — primeiro domínio escolhido por seu potencial de alavancagem. Desviar resíduos orgânicos de aterros sanitários reduz o metano, a forma mais rápida e eficaz de frear o aquecimento no curto prazo, e o setor de resíduos pode fazer isso reduzindo custos no nível do sistema (UNEP, Global Methane Status Report, 2025). Isso também abre caminho para a economia circular mais ampla: estima-se que dois terços das emissões globais estejam ligados à forma como os recursos são extraídos, usados e descartados, e que intervenções de economia circular sejam capazes de entregar cerca de 85% das reduções adicionais de emissões necessárias, além dos compromissos nacionais atuais, para manter o aquecimento abaixo de 2 °C (Circularity Gap Report, 2021). Estima-se que a transição que elas viabilizam possa evitar até 76 GtCO₂e em emissões até 2050 (WBCSD, Global Circularity Protocol).
O que torna a infraestrutura "pública"
Se a propriedade não determina o que é público, o que determina? Uma resposta recente e rigorosa vem de Mazzucato, Eaves e Vasconcellos (UCL IIPP, Digital Public Infrastructure and Public Value: What is "public" about DPI?, 2024). A conclusão central é aquela sobre a qual a Rede Carrot foi construída:
O caráter público da infraestrutura digital não é determinado por quem a constrói ou possui, mas por como ela é governada: se é criada e governada para o bem comum.
Os autores mostram que definir DPI por seus atributos técnicos (padrões abertos, componentes reutilizáveis) ou por suas funções (as capacidades essenciais que oferece) é necessário, mas, em suas palavras, deixa a governança "em grande medida sem resposta". A infraestrutura só merece o rótulo de "pública" quando valores públicos explícitos são protegidos e aplicados. Eles estabelecem cinco princípios de governança — derivados do framework de "bem comum" de Mazzucato — pelos quais qualquer possível DPI pode ser avaliada:
- Propósito e direcionalidade — a infraestrutura tem uma missão explícita, e essa missão orienta o que ela faz.
- Cocriação e participação — as pessoas que a utilizam ajudam a moldá-la.
- Aprendizado coletivo e compartilhamento de conhecimento — métodos e evidências são abertos o suficiente para que outros aprendam com eles.
- Acesso para todos e compartilhamento de recompensas — o valor alcança amplamente os participantes, não apenas o operador.
- Transparência e responsabilização — regras, decisões e finanças podem ser inspecionadas.
Esses princípios descrevem governança e resultados, não origens. Os mesmos autores aceitam que a infraestrutura compartilhada "pode ser fornecida tanto por organizações públicas quanto privadas, ou até mesmo desenvolvida em conjunto" — desde que, independentemente de como seja construída, um mecanismo publicamente responsável garanta acesso e compartilhamento de recompensas ao longo do tempo. Essa condição explica por que os componentes centrais da rede são disponibilizados como bens públicos digitais: metodologias abertas, um registry aberto e código de verificação aberto transformam "acesso para todos" e "aprendizado coletivo" de promessas em propriedades que qualquer pessoa pode verificar. Esse também é o standard que a Rede Carrot foi construída para atender — e a próxima seção o enfrenta diretamente.
Como a Rede Carrot atende ao teste de governança pública
A Rede Carrot é administrada pela Carrot Foundation (registrada como "Carrot Fndn"), uma fundação suíça constituída nos termos do Artigo 80 e seguintes do Código Civil Suíço, registrada em Zug (UID CHE-152.448.302), criada em outubro de 2023 e supervisionada pela Autoridade Federal de Supervisão de Fundações da Suíça (ESA). O propósito estatutário (Zweck) de uma fundação suíça não pode ser alterado por seu próprio conselho; ela é supervisionada e auditada externamente. Essa forma jurídica permite que a Fundação atue como administradora, não proprietária — ela pode evoluir a forma como a rede opera, mas não pode desviar a rede do propósito que justifica sua existência. Esse é o novo tipo de organização mencionado na abertura deste documento: propósito declarado e protegido, governança transparente e supervisão externa. Ele também responde ao problema de coordenação em sua origem: um mercado cujo valor beneficia a todos só pode ser formado por um ator que não precise capturar esse valor — e uma administradora sem fins lucrativos, vinculada a um propósito imutável, é esse ator por definição.
Em relação aos cinco princípios de governança:
- Propósito e direcionalidade. O propósito da Fundação — construir uma economia circular inclusiva e de baixo carbono — está registrado em sua Escritura e no registro comercial suíço e é vinculante segundo a legislação suíça. É uma obrigação, não apenas uma aspiração.
- Cocriação e participação. Participantes dos ecossistemas de trabalho ambiental e desenvolvimento social são contrapartes diretas da rede e ajudam a moldar sua evolução. Ao longo do tempo, a responsabilidade por diferentes aspectos da rede foi projetada para ser gerenciada de forma distribuída e descentralizada, em vez de se concentrar em um único operador; hoje, a rede é centralizada para garantir qualidade fundacional e uma liderança inicial sólida — escolha abordada com transparência em Construindo DPI com responsabilidade, abaixo —, e a participação se amplia à medida que ela amadurece. (Este é um desenho de benefícios e gestão distribuídos, não uma concessão de direitos de controle a participantes individuais.)
- Aprendizado coletivo e compartilhamento de conhecimento. O código de verificação que executa cada metodologia é open source sob a LGPL-3.0 e publicamente inspecionável; os frameworks de metodologia são versionados e documentados; o pipeline de evidências de Monitoramento, Relato e Verificação digital (dMRV) para créditos de carbono permite que verificadores homologados, autores de metodologia e desenvolvedores de aplicações trabalhem sobre regras compartilhadas e documentadas, não sobre planilhas privadas.
- Acesso para todos e compartilhamento de recompensas. A rede é aberta aos participantes de todo o ecossistema de criação de valor, e o valor flui para as pessoas que realizam o trabalho ambiental, na proporção de sua contribuição verificada — em vez de se concentrar no operador. Com taxas transparentes e publicadas, 100% dos recursos financiam o ecossistema e a rede que o atende — pelo menos 80% de cada venda de crédito são distribuídos aos participantes do ecossistema, e o restante sustenta os trilhos públicos (consulte Como a rede é financiada, abaixo) —, e as parcelas de recompensa são ajustadas por tipo de impacto — para resultados de economia circular, por material, território e papel — a fim de direcionar esforços para onde a recuperação é mais difícil. O ajuste orienta os esforços; ele depende da emissão e da venda de um crédito. (O comprador detém o crédito e passa a tê-lo integralmente na aposentadoria; os participantes são recompensados por sua contribuição, mas nunca são proprietários do próprio crédito.)
- Transparência e responsabilização. Além da supervisão federal descrita acima, o registro subjacente é imutável: há um histórico duradouro de todas as transações e atualizações de cada dado, e os principais resultados — emissão, transferência e aposentadoria de créditos — são registrados em um registry público que qualquer pessoa pode auditar. Nem toda parte da plataforma é registrada publicamente, e alguns dados operacionais têm acesso restrito a auditores e verificadores, em vez de serem abertos a todos — um equilíbrio deliberado entre auditabilidade pública e privacidade das pessoas e empresas cujo trabalho é registrado, com dados pessoais e operacionais criptografados e tratados segundo a legislação de proteção de dados aplicável e práticas alinhadas ao GDPR (consulte Construindo DPI com responsabilidade, abaixo).
Como a rede é financiada — e como reduz o risco da participação
Os resultados ambientais e sociais buscados pela rede são bens públicos que se tornam financiáveis na forma de créditos. A rede opera com sistemas de créditos e é sustentada pela venda de créditos — resultados ambientais verificados pelos quais um comprador paga, descritos em detalhes em A extensão ambiental, abaixo. A integridade dos créditos depende de quem define as regras, quem emite os créditos e quem lucra — e de manter esses papéis separados e íntegros. A Carrot foi construída para mantê-los distintos. Ela é uma administradora sem fins lucrativos, vinculada a um propósito imutável. Não tem acionistas, e suas taxas não funcionam como um dividendo que cresce com a emissão. As regras que determinam o que se qualifica são open source e auditáveis; a verificação é executada por software determinístico e revisada por organismos independentes de validação e verificação (VVBs), não pela própria Carrot; e o registro de cada crédito é público. A Carrot foi construída como infraestrutura aberta sobre a qual standards e registries estabelecidos podem construir e com a qual podem interoperar, conquistando credibilidade por meio de resultados demonstrados e reconhecimento independente, não por autodeclaração. O objetivo não é acrescentar mais um standard a um campo já saturado, mas fornecer a camada que tem faltado — trilhos compartilhados e abertos para identidade, verificação, registro e liquidação.
Os recursos de cada venda de crédito são distribuídos aos participantes registrados ao longo da cadeia de criação de valor, na proporção de sua contribuição verificada, conforme a Política de Distribuição de Recompensas publicada. A distribuição utiliza uma moeda digital rastreável (USDC), escolhida porque permite liquidação transfronteiriça a baixo custo, alcança os participantes diretamente e deixa uma trilha auditável de ponta a ponta, da venda ao destinatário. O que não é distribuído aos participantes é organizado em fundos com propósito definido, para que esteja sempre visível para que serve cada unidade de valor — a economia da rede é governada, não discricionária por padrão:
- Treasury — operações da Fundação. Financia gestão, administração, área jurídica, conformidade, governança e conselho da Fundação. É abastecida por taxas publicadas sobre o trabalho realizado pela Fundação — uma taxa de registry (1%, quando a Carrot é o registry oficial), uma taxa de distribuição de recompensas/liquidação (2,5%) e encargos de dMRV/integridade (atualmente 16,5%, variando conforme o cenário). Juntos, eles formam a parcela da rede — 20% quando a Carrot é o registry oficial —, de modo que 100% de cada venda de crédito financia a missão: pelo menos 80% chegam diretamente ao ecossistema, e o restante sustenta os trilhos públicos. Essa divisão pode ser verificada na Política de Distribuição de Recompensas, em vez de ser apenas anunciada como uma taxa principal. Como a Treasury é financiada por taxas publicadas cobradas por uma administradora sem fins lucrativos — não por um dividendo que cresce com a emissão —, financiar a rede nunca compete com a proteção de sua integridade.
- Community Pool — crescimento do ecossistema. Financia onboarding, expansão e uso da rede em todo o mundo. É abastecido por três mecanismos de incentivo da rede: o desconto aplicado enquanto um participante importante — nas cadeias de reciclagem, o Gerador de Resíduos — ainda não está identificado, o que incentiva a digitalização completa até a origem; o mecanismo de self-policing, que retém recompensas de agentes mal-intencionados; e as recompensas não resgatadas. O valor que, de outra forma, ficaria ocioso é reciclado para o crescimento da rede aberta — e esse fundo foi projetado para avançar em direção à governança aberta, para que outros atores do ecossistema possam ajudar a orientá-lo.
- Impact Pool — desenvolvimento local. Quando o Gerador de Resíduos é uma grande empresa, parte das recompensas que receberia é direcionada a esse fundo, que financia projetos socioambientais e de economia circular no âmbito nacional. Isso mantém um incentivo à participação e um fluxo básico de recompensas para prestadores de serviços em todo o ecossistema, enquanto garante que compradores de créditos não financiem recompensas para grandes corporações — direcionando esse valor ao engajamento e ao desenvolvimento locais.
Dois desses fundos transformam os próprios mecanismos de integridade da rede em combustível para o bem público. O incentivo à rastreabilidade até a origem — um desconto ao longo da cadeia de prestadores de serviço quando o gerador não é identificado — torna a digitalização completa até a origem economicamente vantajosa, e o valor que ele libera flui para o crescimento do ecossistema, não para uma parte privada. O mecanismo de self-policing vincula as recompensas a dados íntegros: como elas fluem ao longo da cadeia de custódia de cada unidade subjacente, um registro sinalizado por dados ruins ou fraudulentos é desqualificado, retendo as recompensas de todos naquela cadeia. Assim, por exemplo, se um transportador e um reciclador enviassem dados falsos para inflar as recompensas, os Geradores de Resíduos ligados a eles também deixariam de ser recompensados — colocando em risco a continuidade do próprio serviço contratado. O mesmo ocorreria em qualquer projeto que não cumprisse os marcos acordados, garantindo que todos na cadeia colaborem e trabalhem em direção ao objetivo comum. Dados íntegros são condição para receber qualquer recompensa, e o valor retido financia o ecossistema. A Fundação também pode suspender ou remover agentes mal-intencionados.
Do ponto de vista da oferta, esses mesmos mecanismos reduzem o risco da participação. Um reciclador, uma cooperativa ou um município decidindo se deve investir em coleta, triagem ou mensuração encontra um conjunto previsível de regras, não um sistema discricionário: as recompensas estão vinculadas a resultados verificados, não a um preço volátil definido pelo operador; a tabela de taxas é publicada na Política de Distribuição de Recompensas, e suas alterações passam pela governança, não pela discricionariedade do operador; e o valor alcança todos os papéis verificados da cadeia na mesma transação, em vez de se concentrar em um único comprador ou intermediário. Recompensas distribuídas conforme regras previsíveis e publicadas, em contrapartida a resultados verificados, permitem que um pequeno operador trate o trabalho ambiental como investimento, não como aposta. Esse é o sistema de financiamento mencionado no início, visto pelo lado da oferta — e a condição para os compromissos do lado da demanda descritos em Formando mercados, abaixo.
Trabalhando com o Estado — e o que a Fundação garante
A literatura sobre DPI geralmente pressupõe que um Estado sustente a infraestrutura, garantindo acesso e compartilhamento de recompensas. A Rede Carrot não tem um Estado por trás dela — por isso, precisa deixar claro o que oferece essas garantias e como trabalha ao lado do setor público, não contra ele.
Algumas coisas só um governo pode fazer: tornar a participação obrigatória em todo um mercado, exercer um mandato eleitoral e atuar como garantia de última instância. A Carrot Foundation não reivindica nenhuma delas, pois é uma camada de mercado opcional e adicional, não uma controladora de acesso a qualquer serviço essencial. O que uma fundação vinculada a um propósito imutável pode garantir são justamente os elementos de que um mercado voluntário precisa para ser confiável — ou que um regulador pode decidir endossar ou rejeitar a qualquer momento:
- Nenhuma captura privada, por definição. O propósito é fixado na Escritura e não pode ser redirecionado ao ganho privado por uma decisão ordinária — apenas por meio do processo de supervisão externa previsto pela legislação suíça para alterar o propósito de uma fundação.
- Responsabilização externa. A supervisão e a auditoria federais estão acima da própria gestão da Fundação.
- Continuidade que não depende da administradora. Como o código de verificação é open source e o registry público de créditos e as metodologias abertas não estão presos à Carrot, os trilhos podem sobreviver à instituição que os administra hoje. Se a Fundação fracassasse ou se desviasse de seu propósito, os ativos públicos da rede continuariam auditáveis — e poderiam ser assumidos e mantidos por outros.
Longe de competir com o governo, a infraestrutura foi construída para aliviar sua carga. Ela pode reduzir custos públicos — tratamento de resíduos e fiscalização, impactos da poluição não controlada sobre a saúde pública, remediação de terras e águas contaminadas — liberando orçamentos municipais enquanto apoia a produtividade local e empregos verdes. Também reúne tecnologia, financiamento e dados verificados no nível do sistema, entre jurisdições, cadeias de valor e fronteiras — além do alcance de qualquer governo isolado. Nesse sentido, é uma facilitadora para o setor público e uma salvaguarda para o mercado que sustenta: o sistema de dMRV executa a verificação, Integradores fornecem os dados de rastreabilidade e a infraestrutura oferece a liquidação de que esse mercado precisa para ser confiável, enquanto o Estado preserva seu mandato, sua autoridade regulatória e seu papel de garantia de última instância. O resultado é uma divisão de responsabilidades clara — propósito público ancorado em uma fundação vinculada a um propósito imutável e em infraestrutura aberta; autoridade pública preservada e exercida pelo Estado.
Um novo caminho: capital privado, destino público
Resta uma pergunta da seção anterior: uma infraestrutura sem um Estado por trás pode inspirar o mesmo grau de confiança? A maior parte das DPIs até hoje foi iniciada pelo Estado — a UPI sob o mandato de um banco central, a X-Road pelo Estado estoniano, o MOSIP como colaboração multilateral open source. A liderança estatal construiu os casos de referência e oferece forças que nenhuma fundação consegue reproduzir: escala, mandato e legitimidade democrática. Mas também traz riscos já conhecidos pela experiência com DPI. Prioridades e financiamento podem mudar com governos e ciclos orçamentários, expondo a infraestrutura a retrocessos políticos ou subinvestimento; compromissos com a abertura podem ser difíceis de sustentar durante transições políticas; um sistema financiado como uma linha do orçamento nacional compete com todas as demais necessidades desse orçamento; e uma infraestrutura vinculada a um único Estado não atende com facilidade pessoas e mercados além de suas fronteiras.
Nada disso é um argumento contra a liderança pública — é um argumento de que a confiabilidade da infraestrutura não depende de quem a possui, mas de sua capacidade de manter propósito, financiamento e governança ao longo do tempo político. A literatura sobre DPI chega à mesma conclusão pela direção oposta: ela não exige uma origem estatal — apenas governança pública. A Co-Develop trata quem constrói a DPI como uma escolha de desenho em aberto, desde que a responsabilização pública seja preservada; o artigo do UCL IIPP aceita DPI gerida pelo setor privado desde que acesso e compartilhamento de recompensas sejam garantidos. A lição é que a operação pode ser não governamental, desde que algo garanta o destino público.
A Rede Carrot aplica esse padrão a um domínio em que a coordenação transfronteiriça tem sido lenta — os mercados ambientais —, usando capital privado como gatilho e uma fundação vinculada a um propósito imutável como garantidora do destino público:
- O gatilho é privado. A Solidos Brasil LTDA, empresa de desenvolvimento (o "Lab"), captou capital inicial por meio de instrumentos convencionais para desenvolver os trilhos abertos, o standard de metodologias e o pipeline de dMRV.
- A transferência é estrutural. Por meio de um acordo de cessão de propriedade intelectual assinado em 22 de dezembro de 2023, a Solidos Brasil LTDA cedeu a propriedade intelectual da Rede Carrot — código, metodologias, registries, domínios e conteúdos relacionados — à Carrot Foundation, que agora a mantém sob sua administração conforme a legislação suíça sobre fundações. A Solidos Brasil foi a primeira empresa a construir a tecnologia da rede; hoje, continua esse trabalho para a Fundação ao lado de um conjunto crescente de desenvolvedores independentes — entre eles EcoCircle, Eloverde e a Mare Foundation — como infraestrutura aberta projetada para muitos desenvolvedores.
- O destino é público. Governada nos termos do Art. 80 do ZGB, a Fundação é a administradora dos trilhos, vinculada ao propósito.
O modelo de fundação suíça como administradora está bem estabelecido para ativos de interesse público — é a estrutura usada há muito tempo pela filantropia em instituições vinculadas a uma missão, incluindo as parcerias para desenvolvimento de produtos sediadas em Genebra e criadas para a saúde global: a Medicines for Malaria Venture, fundação suíça desde 1999, e a Drugs for Neglected Diseases initiative, constituída, assim como a Carrot Foundation, nos termos do Artigo 80 e seguintes do Código Civil Suíço — ativos administrados para uma missão, não para proprietários. A Rede Carrot aplica esse padrão de administração a mercados ambientais — com os próprios trilhos disponibilizados como bens públicos digitais.
A extensão ambiental
Mercados ambientais precisam de um elemento de desenho que a infraestrutura de identidade e pagamentos não exigiu: um instrumento de geração de créditos para internalizar externalidades.
O uso de infraestrutura de identidade ou pagamentos gera valor imediato para o usuário, portanto a adoção se motiva por si só. O trabalho ambiental — reuso, reciclagem, compostagem, digestão anaeróbica, redução de superpoluentes (por exemplo, metano, óxido nitroso, ozônio ao nível do solo, carbono negro e gases fluorados), remoção de dióxido de carbono, reflorestamento, restauração de água e natureza, produção de energia renovável, entre outros — é diferente: produz valor (o bem público) para terceiros (a cidade, a atmosfera, as gerações futuras), e as pessoas que realizam o trabalho não são recompensadas automaticamente por quem se beneficia. Sem um mecanismo que canalize a disposição de compradores e partes obrigadas a pagar de volta às pessoas que produzem o resultado, os trilhos ficam sem combustível.
Os créditos da Carrot — o Crédito de Reciclagem e o Crédito de Carbono, registrados em um registry público e auditável — são esse mecanismo. Ambos já estão ativos: créditos foram emitidos, vendidos e aposentados, e os recursos foram distribuídos aos participantes registrados ao longo da cadeia de custódia de cada unidade subjacente. Eles são, na prática, um instrumento de financiamento baseado em resultados: o pagamento de um comprador é liberado mediante um resultado ambiental verificado, não uma promessa ou estimativa, e o valor que ele libera é distribuído às pessoas que produziram esse resultado. Esse é o modelo de financiamento que as próprias instituições de financiamento ao desenvolvimento formalizaram. O documento Carbon Crediting: A Results-Based Approach to Mobilizing Additional Climate Financing (2025), do Banco Mundial, enquadra os créditos como financiamento baseado em resultados — recursos liberados somente depois que os resultados são alcançados, medidos e certificados de forma independente —, com o fundo fiduciário SCALE como plataforma do Banco para financiamento climático baseado em resultados; o documento Unlocking Social and Environmental Impact: Outcome-Based Finance (2025), da IFC, defende instrumentos baseados em resultados como caminho para o capital de impacto em mercados emergentes. O mecanismo de créditos da Carrot aplica esse modelo em trilhos públicos e abertos: a rede opera como um registry público para a economia circular — infraestrutura aberta e digital de MRV e créditos sobre a qual standards, registries e coalizões de compradores estabelecidos podem construir. Os créditos são instrumentos de mercado que operam sobre trilhos de propósito público, com regras e fluxos de valor visíveis e inspecionáveis. O padrão de DPI absorve essa extensão de forma direta: o trilho permanece público; o crédito é a camada de formação de mercado que torna o trilho economicamente viável para as pessoas que realizam o trabalho ambiental. Um ponto crucial de integridade: registrar um crédito em um registry público confere durabilidade e auditabilidade — não integridade. A integridade vem da metodologia e da verificação independente antes do registry. A Carrot é a infraestrutura compartilhada sobre a qual operadores, autores de metodologia, verificadores homologados e compradores constroem; ela não executa projetos ambientais em campo e não é a verificadora. Essa separação permite que a rede funcione como trilhos compartilhados para todas as partes interessadas — e, como todas constroem sobre a mesma infraestrutura aberta, torna a rede escalável e interoperável.
Formando mercados, não apenas registrando-os
Trilhos públicos e um instrumento de geração de créditos tornam um mercado possível. O que o faz funcionar é a capacidade de moldar a demanda e reduzir o risco da oferta, permitindo que o capital se mova antes que o resultado exista. É aqui que a infraestrutura pública faz mais do que registrar transações — ela pode ajudar a transformar um mercado, moldando-o na direção de um resultado definido, em vez de apenas compensar transações individuais.
Essa reformulação tem uma base rigorosa e depende de uma distinção que vale explicitar. A visão convencional trata o mercado como uma condição natural que ocasionalmente falha — por externalidades como a poluição ou pela ausência de bens públicos —, deixando ao setor público o papel de corrigir a falha e então recuar. Em Governing the Economics of the Common Good: from correcting market failures to shaping collective goals (2024), Mazzucato rejeita essa premissa: mercados não são dados naturais a serem remendados, mas "resultados de estruturas de governança" — construídos e, portanto, passíveis de ser moldados pelos atores que os governam. A tarefa não é corrigir um mercado depois que ele falha, mas formá-lo e moldá-lo, orientando-o para uma direção escolhida coletivamente.
Para a economia ambiental, a distinção é decisiva — é o diagnóstico que abriu este documento. As centenas de bilhões que deveriam fluir para resultados ambientais e sociais verificados, mas não fluem, indicam um mercado a formar, não uma falha a corrigir. Os canais atuais tampouco o formarão sozinhos: o financiamento climático privado transfronteiriço flui predominantemente como dívida de projetos para energia em escala de serviços públicos em poucos grandes mercados, e não alcança o trabalho ambiental distribuído — pequenos produtores, cooperativas e cadeias municipais — onde os resultados de economia circular são efetivamente produzidos. Parte do que mantém esse trabalho fora de alcance é o custo de entrada: programas e registries convencionais de créditos cobram taxas iniciais de homologação e registro que excluem pequenos e médios operadores — poucas instalações de compostagem ou centros de reciclagem conseguem arcar com a homologação em um registry, muito menos assumir esse custo sem garantia de que a venda de créditos algum dia o compensará. Como registry digital nativo, a Carrot reduz significativamente esse custo de participação — ampliando o acesso e, com ele, uma oferta de créditos que os mercados atuais ainda não alcançam. A Carrot é infraestrutura para essa formação: um trilho governado para um propósito público fixo, construído para dar direção a um mercado, não apenas registrar o que acontece dentro dele.
O mecanismo que faz isso do lado da demanda é a demanda antecipada coordenada — clubes, coalizões e alianças de compradores (o padrão usado para vacinas e, agora, para remoção de dióxido de carbono) e, em sua forma mais estruturada, o Advance Market Commitment (AMC). Ele também é o mecanismo de coordenação mencionado na abertura deste documento: uma forma de compradores dispostos a agir em conjunto, no nível do sistema, sem esperar unanimidade. Um AMC é um compromisso assumido antes de a oferta existir para comprar um volume definido de um resultado verificado a um preço definido. Esse compromisso antecipado torna a oferta financiável: transforma "esperamos que alguém compre isto" em "este volume já está vendido", criando a certeza de demanda que permite que um fornecedor — e seus financiadores — invista. O AMC entra para dar a um mercado que precisa ser formado sua primeira demanda firme. O padrão tem histórico comprovado:
- Saúde. O caso canônico é o AMC pneumocócico: em 2009, cinco governos e a Bill & Melinda Gates Foundation comprometeram US$ 1,5 bilhão por meio da Gavi, the Vaccine Alliance, para garantir demanda por vacinas pneumocócicas antes que os fabricantes tivessem construído a oferta. Funcionou — mais de um bilhão de doses já foram fornecidas a países de renda mais baixa, e a licitação final reduziu o preço para US$ 2 por dose. A mesma lógica, em ritmo emergencial, sustentou os acordos de compra antecipada da COVID-19, que comprometeram cerca de US$ 18 bilhões com vacinas que ainda não existiam.
- Remoção de carbono. A Frontier Climate — coalizão de compradores criada pela Stripe — usou compromissos antecipados (pré-compras e contratos de compra com pagamento na entrega) para tirar tecnologias iniciais de remoção de carbono dos laboratórios. O compromisso de seus compradores cresceu para US$ 1,8 bilhão (junho de 2026), com cerca de US$ 694 milhões já contratados com fornecedores de remoção de carbono — e 71% dos fundadores afirmaram que isso influenciou sua decisão de criar uma empresa de remoção de carbono (Ransohoff, How to Start an Advance Market Commitment, 2024). Ransohoff inclui explicitamente a remoção de gases de efeito estufa, como metano e óxido nitroso, entre os próximos domínios adequados para um AMC.
- Em escala de coalizão. A Symbiosis Coalition (Google, Meta, Microsoft e Salesforce) anunciou a intenção de contratar até 20 milhões de toneladas de créditos de remoção de carbono baseados na natureza até 2030 por meio de um processo compartilhado que prioriza a qualidade — um exemplo atual de compradores coordenando demanda antecipada. O Commitments Playbook (2024), da Renaissance Philanthropy, descreve como essas coalizões são formadas: compromissos âncora, um chamado público à ação e prazos definidos que transformam promessas em demanda coordenada.
Um compromisso antecipado, porém, só é tão confiável quanto a verificação e a liquidação que o sustentam. Para se comprometer a comprar "um resultado verificado" antes de ele existir, o comprador precisa confiar que o resultado poderá ser verificado de forma independente, registrado de forma única, para que não seja contado ou vendido duas vezes, e liquidado com transparência. Essas são as três funções de confiança — identidade, troca de dados e liquidação — fornecidas pela infraestrutura pública digital e pelos bens públicos digitais disponibilizados pela Rede Carrot: metodologias abertas, um registry público aberto e código de verificação aberto. Em termos de financiamento ao desenvolvimento, é isso que torna um resultado financiável: quando muitos compradores se comprometem antecipadamente a comprar uma produção futura, essa certeza de demanda permite que o capital trate pequenos produtores ambientais distribuídos como aptos a receber investimento — a lógica de formação de mercados que instituições de financiamento ao desenvolvimento já aplicam ao financiamento combinado (o International Finance Corporation defende esse argumento no financiamento de economia circular em mercados emergentes).
Esse é o caminho que a infraestrutura foi construída para viabilizar: bens públicos digitais → resultados verificáveis e registrados de forma única → resultados com os quais compradores podem se comprometer antecipadamente → investimento financiável e com risco reduzido → um mercado que paga por resultados. A Rede Carrot fornece a infraestrutura pública sobre a qual esses compromissos podem ser coordenados, acompanhados e ampliados. Ela não opera um compromisso de mercado nem atua como compradora; torna o padrão possível e confiável para coalizões, financiadores e partes obrigadas que o executam. Os trilhos são deliberadamente indiferentes ao motivo pelo qual um comprador paga: seja a demanda proveniente de uma coalizão voluntária, de uma parte obrigada por regulamentação ou de um programa público que paga por resultados, a verificação, o registro único e a liquidação são os mesmos. Nenhum mercado voluntário consegue, sozinho, fechar uma lacuna da dimensão apresentada no início deste documento; o que ele comprova é a infraestrutura de confiança de que todo canal de demanda precisa para alcançar o trabalho distribuído onde os resultados são produzidos. Usada dessa forma, a infraestrutura apoia uma transição do financiamento climático e ambiental de promessas para resultados verificados — construída sobre trilhos públicos.
A Carrot no debate global sobre DPI
Os mercados ambientais agora são uma fronteira explícita para DPI — e a Carrot é uma contribuição operacional a essa fronteira, não uma alegação sem base concreta:
- O relatório Digital Public Infrastructure for Climate do ITS Rio e de Ronaldo Lemos (2025), preparado para a Presidência da COP30, descreve a "Climate DPI" como um sistema operacional para a ação climática e propõe uma "ClimateStack" modular cujas camadas incluem explicitamente mercados de carbono e liquidação de créditos e financiamento climático — funções voltadas ao mercado, não apenas aos dados. A Rede Carrot é uma implementação operacional em estágio inicial dessa função de financiamento e registry, focada primeiro em resíduos e metano, e demonstra como essas camadas de liquidação e mercado podem ser construídas como bens públicos, não como uma bolsa proprietária. Com os parceiros e o capital adequados, os mesmos trilhos podem atender a DPI de natureza e clima de forma mais ampla — por desenho, eles são independentes de domínio.
- O trabalho "Nature ID" do UNDP propõe DPI para natureza e clima como uma camada de interoperabilidade para dados ambientais, rastreabilidade em mercados de carbono e créditos de biodiversidade — mencionando referências concretas como o Cadastro Ambiental Rural do Brasil.
- As instituições que definem DPI — UCL IIPP, o Co-Develop Fund (Rockefeller Foundation, Bill & Melinda Gates Foundation, Omidyar Network e Nilekani Philanthropies), o UNDP e o Banco Mundial — concentraram-se em identidade, pagamentos e troca de dados. A contribuição da Carrot é demonstrar que o mesmo padrão de desenho, o mesmo standard de governança e o mesmo potencial de formação de mercados se estendem a alegações ambientais — de resíduos e metano hoje a água, natureza e biodiversidade no futuro. A própria Carrot não comercializa materiais nem opera serviços em campo; ela torna tangível o valor do bem público verificado e o direciona ao ecossistema que o produziu.
Construindo DPI com responsabilidade: os riscos que orientam nosso desenho
A DPI não é automaticamente benigna, e um projeto de infraestrutura pública confiável deve dizer isso de forma concreta. O Universal DPI Safeguards Framework da ONU (UNDP e Escritório das Nações Unidas para Tecnologias Digitais e Emergentes, 2024) e uma extensa literatura independente documentam danos reais causados por sistemas reais — exclusão, vigilância e captura. A lição mais difícil das implementações em larga escala é precisa: quando o acesso a um serviço essencial é condicionado a um trilho digital, as falhas desse trilho atingem com mais força as pessoas mais vulneráveis — e sistemas "voluntários" tendem a se tornar obrigatórios na prática à medida que o valor essencial se concentra no trilho. Como construtora não estatal, a própria Rede Carrot está sujeita ao ciclo de vida do Universal DPI Safeguards, e aceitamos esse standard.
Como a rede foi desenhada para enfrentar cada modo de falha — com transparência, inclusive onde uma salvaguarda ainda está amadurecendo:
- Exclusão / transição para obrigatoriedade na prática. A Carrot recompensa pessoas por contribuições ambientais no nível do sistema; não se interpõe entre ninguém e seu alimento, sua identidade, seus benefícios ou seu sustento, portanto o risco de condicionar o bem-estar não surge da mesma forma. O risco mais sutil é próprio da Carrot: à medida que a demanda se concentra no trilho, um participante que não esteja registrado pode perder acesso ao mercado recompensado por sua contribuição. A rede é uma camada adicional de mercado: a participação é opcional, e os participantes podem negociar — e negociam — fora dos trilhos; compradores privados e canais administrados por municípios existem, embora continuem pequenos, locais e difíceis de escalar, e nenhum comprador é obrigado a adquirir créditos exclusivamente pela Carrot.
- Vigilância e risco de dados. Um registry que registra as contribuições de trabalhadores identificados é, por si só, uma possível superfície de vigilância, portanto o escopo da transparência pública importa. A transparência do registry público é limitada aos registros de créditos — emissão, transferência e aposentadoria —, enquanto dados operacionais e pessoais têm acesso restrito a auditores e verificadores, não são abertos a todos, e são tratados segundo práticas de minimização de dados, criptografia e retenção e conforme a legislação de privacidade aplicável (LGPD/GDPR), como estabelecido na Política de Privacidade publicada.
- Captura. A Carrot é deliberadamente centralizada hoje, sob uma equipe de desenvolvimento focada, para garantir qualidade fundacional, visão clara e liderança inicial sólida. Essa é uma característica da fase inicial, não o estado final: a participação se amplia para mais partes interessadas ao longo do tempo, e salvaguardas são acrescentadas conforme a rede cresce, alinhadas ao propósito declarado da Fundação. As proteções estruturais que permanecem são o propósito imutável (a missão não pode ser alterada unilateralmente), a supervisão federal externa e as interfaces e o código abertos, para que outros possam construir sobre os trilhos — e, se necessário, dar continuidade a eles de forma independente.
- Integridade do registry. Registrar um crédito em um registry público confere durabilidade e auditabilidade — não integridade. Mercados de carbono e ambientais já apresentaram créditos fracos como se fossem verificados; a Carrot aplica a integridade antes do registry, na metodologia e na verificação independente por terceiros. Por exemplo, cada unidade de material (um MassID) pode conter no máximo um crédito de carbono e um crédito de reciclagem, o que evita dupla contagem, e os benefícios associados nunca são precificados no crédito de carbono. As metodologias publicadas na Carrot enfrentam diretamente os riscos de compensação e greenwashing, e compradores de créditos que exagerem suas alegações podem ser suspensos.
Apresentamos esses compromissos para que possamos ser responsabilizados por eles, por meio de mecanismos identificados, não de garantias de bom caráter — código aberto que qualquer pessoa pode auditar, um registry público que qualquer pessoa pode inspecionar, supervisão federal da Fundação e uma Política de Distribuição de Recompensas e Termos e Condições publicados. Nesse domínio, a integridade precisa ser demonstrada por mecanismos — conformidade, rastreabilidade e transparência —, não declarada.
Saiba mais
O mercado mencionado na abertura deste documento não espera ser corrigido; espera ser formado — e nenhuma empresa ou governo pode formá-lo sozinho. Essa formação exige os três elementos indicados no início, e a Rede Carrot é onde eles podem coexistir em escala: um sistema de financiamento que direciona capital a resultados verificados e distribui valor às pessoas que os produzem; uma camada de tecnologia, construída com bens públicos digitais, que torna esses resultados confiáveis; e uma administradora vinculada a um propósito imutável e supervisionada externamente, que mantém os trilhos fiéis ao propósito declarado. Cada elemento já pode ser inspecionado. O próprio trabalho de formação é compartilhado por desenho — pertence aos compradores, desenvolvedores, financiadores e órgãos públicos para os quais esses trilhos foram construídos. As notas a seguir descrevem onde cada um pode começar.
Para financiadores filantrópicos e investidores catalíticos — A Carrot Foundation está estruturada para receber capital filantrópico e catalítico em apoio aos trilhos de propósito público: desenvolvimento de metodologias, pipeline de dMRV e governança da rede. Esse capital também pode financiar a capacidade inicial da própria Fundação — os custos administrativos e de desenvolvimento necessários para estabelecer uma instituição de propósito público antes que as taxas publicadas da rede possam sustentá-la. Os mesmos trilhos permitem que um financiador ou uma coalizão de compradores direcione compromissos antecipados baseados em resultados para resultados ambientais e sociais verificados — fluxos de materiais mais limpos e menos emissões, além de empregos verdes, inclusão e desenvolvimento local —, reduzindo o risco para os produtores que os entregam. A filantropia usada dessa forma é capital de formação de mercados: atua antes que um mercado possa se sustentar e deixa como legado trilhos abertos sobre os quais outros constroem. Financiadores que queiram examinar diretamente os trilhos, a Política de Distribuição de Recompensas ou o registry público — ou explorar o que um compromisso âncora poderia ajudar a formar — estão convidados a iniciar essa conversa com a Fundação. Para suporte, entre em contato com fund.impact@carrot.eco.
Para participantes e integradores do ecossistema — A Rede Carrot é aberta às pessoas e empresas que produzem resultados ambientais verificados — nas cadeias atuais de economia circular: Geradores de Resíduos, Processadores e Recicladores — e aos integradores que as conectam aos trilhos compartilhados. A recompensa está vinculada a resultados verificados, conforme uma tabela publicada e baseada em regras, contra a qual os participantes podem planejar e investir. Para suporte ao onboarding, os participantes podem entrar em contato com onboard@carrot.eco; para homologação de desenvolvedores de projetos e recicladores, operations@carrot.eco; e, para integradores da rede, integration@carrot.eco.
Para compradores e coalizões de demanda — Um crédito na rede é um instrumento baseado em resultados: o pagamento é liberado mediante um resultado verificado de forma independente, registrado de forma única para que não seja contado ou vendido duas vezes e liquidado com transparência — visível desde a compra até as pessoas que produziram o resultado. Os mesmos trilhos permitem que coalizões coordenem compromissos antecipados com resultados que ainda não existem, com a verificação e a liquidação já implementadas. Para suporte, entre em contato com registry@carrot.eco.
Para governos e órgãos públicos — A infraestrutura foi construída para aliviar a carga do setor público, não substituí-lo: reduzir custos de tratamento de resíduos e fiscalização, encargos de saúde pública e remediação, liberar orçamentos municipais e apoiar empregos verdes e produtividade locais — com verificação executada pelo sistema de dMRV, dados de rastreabilidade fornecidos por Integradores e liquidação para o mercado, enquanto o Estado preserva seu mandato, sua autoridade regulatória e seu papel de garantia de última instância. Ela também pode viabilizar novas políticas baseadas em mercado: sob a Responsabilidade Estendida do Produtor (EPR), por exemplo, os produtores podem cumprir obrigações financiando diretamente resultados verificados de redução de resíduos — conformidade demonstrada por resultados, não apenas por documentação. Para suporte, entre em contato com gov.support@carrot.eco.
Para pesquisadores e atores de políticas públicas — Frameworks de metodologia, código de verificação e registry público de créditos são bens públicos digitais publicamente inspecionáveis. Para pesquisa e desenvolvimento de metodologias, entre em contato com science@carrot.eco.
Para perguntas gerais — contact@carrot.eco.
Páginas relacionadas: A Carrot Foundation · Governança · A Rede · Política de Distribuição de Recompensas · Termos e Condições
Como citar: McKee, I., & Doria, M. (2026). Digital Public Infrastructure for Global Climate Finance — Case: Low-carbon circular economy. Carrot Foundation White Paper v1.6.
Recursos externos
- Mazzucato, M., Eaves, D. & Vasconcellos, B. (2024). Digital Public Infrastructure and Public Value: What is "public" about DPI? UCL IIPP WP 2024-05. Revisado por pares: Journal of Economic Policy Reform 29(2):113–141 (2026), acesso aberto.
- Mazzucato, M. (2024). Governing the Economics of the Common Good: from correcting market failures to shaping collective goals. Journal of Economic Policy Reform 27(1):1–24, acesso aberto. https://doi.org/10.1080/17487870.2023.2280969
- Eaves, D. & Sandman, J. (2023). What is Digital Public Infrastructure? Co-Develop.
- Banco Mundial / ID4D (2022). A Digital Stack for Transforming Service Delivery: ID, Payments, and Data Sharing.
- Ransohoff, N. (2024). How to Start an Advance Market Commitment. Works in Progress / Frontier.
- Renaissance Philanthropy (2024). Commitments Playbook.
- Symbiosis Coalition (2024). Introducing Symbiosis.
- International Finance Corporation (IFC) (2025). Unlocking Social and Environmental Impact: Outcome-Based Finance in Clean Cooking, Distributed Renewable Energy, and Small-Scale Agribusiness. Consulte também o trabalho da IFC sobre financiamento combinado como instrumento de formação de mercados para a economia circular em mercados emergentes.
- Banco Mundial (2025). Carbon Crediting: A Results-Based Approach to Mobilizing Additional Climate Financing. Consulte também o SCALE — Scaling Climate Action by Lowering Emissions, fundo fiduciário abrangente do Banco Mundial para financiamento climático baseado em resultados.
- WBCSD — Global Circularity Protocol.
- IHLEG — Independent High-Level Expert Group on Climate Finance (2025). Delivering an integrated climate finance agenda in support of the Baku to Belém Roadmap to 1.3T. LSE Grantham Research Institute, novembro de 2025.
- Climate Policy Initiative (2025). Global Landscape of Climate Finance 2025.
- UNEP (2025). Global Methane Status Report 2025.
- Circle Economy — Circularity Gap Report 2021 (e edições anuais).
- ITS Rio & Lemos, R. (2025). Digital Public Infrastructure for Climate. Presidência da COP30.
- UNDP — Digital Public Infrastructure e The Case for Nature ID.
- Universal DPI Safeguards Framework (UNDP / UN ODET, 2024) — dpi-safeguards.org.
Visão Geral
A Rede Carrot é infraestrutura pública digital para a economia circular de baixo carbono e eficiente no uso de recursos — trilhos compartilhados, construídos a partir de bens públicos digitais, projetados para tornar resultados ambientais e sociais verificáveis e financiáveis — e construídos para escalar.
Governança
Como a Rede Carrot é governada — administração da Fundação vinculada ao propósito, responsabilidade pública e participação progressiva.